A Suspensão da Realidade

Criando coerência em um mundo de Ficção Por Sandro Massarani Pode-se dizer que toda vez que começamos a ver ou ler uma obra narrativa, é estabelecido um "contrato" entre o autor e o seu público. Em troca de receber e sentir as emoções de uma história, o público realiza o que chamamos de suspensão da realidade, ou seja, por aquele período de tempo, nós não estamos mais no nosso mundo, mas sim nos transportamos para o mundo criado pelo autor. O escritor e roteirista, durante o processo de construção do texto, deve ter muito cuidado ao estabelecer onde sua obra vai se situar e quais são as regras que regem esse mundo. Ele deve ficar muito atento para não romper com os limites da suspensão da realidade, ou seja, quebrar a coerência do mundo onde sua obra se situa, com o risco de fazer com que o público perca o interesse pela história e se sinta desapontado. Uma das grandes façanhas de George Lucas foi a criação de toda uma mitologia e um universo distinto no filme Guerra nas Estrelas (1977). Ao assistirmos o filme, nossa realidade é suspensa e somos levados a uma guerra espacial entre os rebeldes e o maléfico império. Temos planetas diversos, inúmeras espécies diferentes, som no vácuo do espaço, naves gigantescas e espadas de luz. Porém, em nenhum momento duvidamos da existência ficcional deste mundo durante o filme. Lucas respeita as regras que ele mesmo criou. Nós sabemos dos limites de uma nave espacial, assim como sabemos os limites e os poderes de um sabre de luz. Quando anos depois Lucas retomou o mundo de Guerra nas Estrelas, fazendo uma nova trilogia, muitas críticas foram realizadas, principalmente por fãs que se sentiram traídos por incoerências encontradas com o mundo estabelecido anteriormente. Uma das principais foi no desenvolvimento do personagem de Anakin Skywalker, o Darth Vader. Apesar de já dar sinais de turbulência espiritual, Anakin se torna um ser extremamente cruel em questão de minutos, fazendo inclusive uma chacina de crianças. Nesse momento, a suspensão da realidade é forçada ao extremo, e, para muitos, rompida. O curioso é que a crítica não é em relação a tecnologia de um mundo de fantasia espacial, mas sim em relação a mudança repentina no comportamento humano. Lembrando que ficção não é "realidade", mas sim uma representação dela. No mundo "real", coincidências e atos repentinos são mais comuns do que imaginamos. Em uma obra de ficção, porém, isso pode ser visto como desleixo do escritor. Não é só em obras de ficção científica que a suspensão da realidade ocorre. Ela ocorre em todas as obras, do teatro às histórias em quadrinhos, do universo mais distante a uma obra feita sobre o bairro que você vive. A novela Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro - 2012), da rede Globo de televisão, fez grande sucesso ao explorar de maneira eficaz o enredo da vingança. Porém, em vários momentos o espectador se sentiu frustrado e teve a suspenção da realidade quebrada. O mundo ficcional de Avenida Brasil foi estabelecido no Rio de Janeiro, tendo destaque partes do seu subúrbio. Quando a personagem Nina (Débora Falabela), que passou anos no exterior, e tem relativa educação escolar, não usa o recurso de um pen drive para poder fazer cópias das fotos comprometedoras de sua inimiga, a suspensão da realidade é quebrada, e o fato acabou virando assunto nacional. A personagem de Nina em praticamente nenhum momento da história se mostrou alheia e ignorante a questões tecnológicas. Além disso, poderia ter feito mais revelações das fotos ou feito cópias por email. Curioso também que nenhum outro personagem lhe aconselhou sobre isso. Esse episódio se configurou como um grave furo na coerência do mundo estabelecido. O autor deve fazer toda uma pesquisa na hora de construir o mundo no qual sua história ocorrerá. Seja na criação de personagens, seja na criação de um mundo de ficção, se não tivermos todo um cuidado na hora da construção, acabaremos esbarrando nos temidos estereótipos e clichés, e isso é muito perigoso. Se você for escrever sobre depressão, faça pesquisas e procure se aprofundar no tema. Se for escrever sobre a periferia do Rio de Janeiro, faça pesquisas e consulte jornalistas, policiais e livros especializados. A periferia do Rio de Janeiro não é a mesma que a de São Paulo ou do Rio Grande do Sul. Se você for criar uma obra histórica, conheça os costumes, vestimentas, crenças e práticas da época e do local. No caso da criação de um mundo novo, como o de Guerra nas Estrelas, estabeleça coerências e determine o que pode e o que não pode ser rompido. O respeito a suspensão da realidade do público é uma das características mais importantes de um grande escritor. Bons estudos! Exercícios Faça as seguintes perguntas: - Onde se passa minha obra? - Quais são os habitantes do meu mundo? - Como as pessoas vivem nesse meu mundo ficcional? - Qual é o relevo, clima e arquitetura do local? - A realização de determinada ação por um personagem fere a coerência desse mundo?
tópicos sobre narrativa, roteiros e mundos virtuais
Além do Cotidiano
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A Suspensão da Realidade

Criando coerência em um mundo de Ficção Por Sandro Massarani Pode-se dizer que toda vez que começamos a ver ou ler uma obra narrativa, é estabelecido um "contrato" entre o autor e o seu público. Em troca de receber e sentir as emoções de uma história, o público realiza o que chamamos de suspensão da realidade, ou seja, por aquele período de tempo, nós não estamos mais no nosso mundo, mas sim nos transportamos para o mundo criado pelo autor. O escritor e roteirista, durante o processo de construção do texto, deve ter muito cuidado ao estabelecer onde sua obra vai se situar e quais são as regras que regem esse mundo. Ele deve ficar muito atento para não romper com os limites da suspensão da realidade, ou seja, quebrar a coerência do mundo onde sua obra se situa, com o risco de fazer com que o público perca o interesse pela história e se sinta desapontado. Uma das grandes façanhas de George Lucas foi a criação de toda uma mitologia e um universo distinto no filme Guerra nas Estrelas (1977). Ao assistirmos o filme, nossa realidade é suspensa e somos levados a uma guerra espacial entre os rebeldes e o maléfico império. Temos planetas diversos, inúmeras espécies diferentes, som no vácuo do espaço, naves gigantescas e espadas de luz. Porém, em nenhum momento duvidamos da existência ficcional deste mundo durante o filme. Lucas respeita as regras que ele mesmo criou. Nós sabemos dos limites de uma nave espacial, assim como sabemos os limites e os poderes de um sabre de luz. Quando anos depois Lucas retomou o mundo de Guerra nas Estrelas, fazendo uma nova trilogia, muitas críticas foram realizadas, principalmente por fãs que se sentiram traídos por incoerências encontradas com o mundo estabelecido anteriormente. Uma das principais foi no desenvolvimento do personagem de Anakin Skywalker, o Darth Vader. Apesar de já dar sinais de turbulência espiritual, Anakin se torna um ser extremamente cruel em questão de minutos, fazendo inclusive uma chacina de crianças. Nesse momento, a suspensão da realidade é forçada ao extremo, e, para muitos, rompida. O curioso é que a crítica não é em relação a tecnologia de um mundo de fantasia espacial, mas sim em relação a mudança repentina no comportamento humano. Lembrando que ficção não é "realidade", mas sim uma representação dela. No mundo "real", coincidências e atos repentinos são mais comuns do que imaginamos. Em uma obra de ficção, porém, isso pode ser visto como desleixo do escritor. Não é só em obras de ficção científica que a suspensão da realidade ocorre. Ela ocorre em todas as obras, do teatro às histórias em quadrinhos, do universo mais distante a uma obra feita sobre o bairro que você vive. A novela Avenida Brasil (João Emanuel Carneiro - 2012), da rede Globo de televisão, fez grande sucesso ao explorar de maneira eficaz o enredo da vingança. Porém, em vários momentos o espectador se sentiu frustrado e teve a suspenção da realidade quebrada. O mundo ficcional de Avenida Brasil foi estabelecido no Rio de Janeiro, tendo destaque partes do seu subúrbio. Quando a personagem Nina (Débora Falabela), que passou anos no exterior, e tem relativa educação escolar, não usa o recurso de um pen drive para poder fazer cópias das fotos comprometedoras de sua inimiga, a suspensão da realidade é quebrada, e o fato acabou virando assunto nacional. A personagem de Nina em praticamente nenhum momento da história se mostrou alheia e ignorante a questões tecnológicas. Além disso, poderia ter feito mais revelações das fotos ou feito cópias por email. Curioso também que nenhum outro personagem lhe aconselhou sobre isso. Esse episódio se configurou como um grave furo na coerência do mundo estabelecido. O autor deve fazer toda uma pesquisa na hora de construir o mundo no qual sua história ocorrerá. Seja na criação de personagens, seja na criação de um mundo de ficção, se não tivermos todo um cuidado na hora da construção, acabaremos esbarrando nos temidos estereótipos e clichés, e isso é muito perigoso. Se você for escrever sobre depressão, faça pesquisas e procure se aprofundar no tema. Se for escrever sobre a periferia do Rio de Janeiro, faça pesquisas e consulte jornalistas, policiais e livros especializados. A periferia do Rio de Janeiro não é a mesma que a de São Paulo ou do Rio Grande do Sul. Se você for criar uma obra histórica, conheça os costumes, vestimentas, crenças e práticas da época e do local. No caso da criação de um mundo novo, como o de Guerra nas Estrelas, estabeleça coerências e determine o que pode e o que não pode ser rompido. O respeito a suspensão da realidade do público é uma das características mais importantes de um grande escritor. Bons estudos! Exercícios Faça as seguintes perguntas: - Onde se passa minha obra? - Quais são os habitantes do meu mundo? - Como as pessoas vivem nesse meu mundo ficcional? - Qual é o relevo, clima e arquitetura do local? - A realização de determinada ação por um personagem fere a coerência desse mundo?