Trabalhando com Subenredos

Criando o Suporte de sua História Por Sandro Massarani Sabemos que o enredo principal de uma história envolve o desejo do protagonista em alcançar um objetivo central para a sua vida. Porém, quase nenhuma obra narrativa se sustenta somente com cenas criadas exclusivamente para o alcance desse objetivo primordial. Para expandir e enriquecer a obra, torna-se necessária a criação de subenredos (subplots), que fazem o mundo ficcional criado pelo autor mais realista e humano. Os subenredos são enredos menores que funcionam como suporte da história, e criam a possibilidade de conhecermos mais sobre a vida do protagonista, além de ser uma das melhores formas de desenvolvermos e criarmos personagens secundários, dando-lhes vida e personalidade. Os subenredos mais comuns são os românticos, os profissionais (relacionados ao trabalho), os familiares, e os obscuros (algo misterioso do passado). O objetivo principal do Super-Homem é manter a paz na Terra, mas várias vezes somos atraídos pela sua relação com Louis Lane, que forma o subenredo romântico da história. O Homem-Aranha também tem subenredos interessantes, como seu trabalho como fotógrafo no Clarim Diário (subenredo profissional), o que lhe dá uma fonte de renda mas ao mesmo tempo alimenta as propagandas contra sua própria pessoa, e também há um delicado subenredo familiar, representado pela sua frágil tia. O que seria do Senhor dos Anéis sem os seus incontáveis subenredos? Será que apenas a jornada de Frodo sustentaria a história? Lógico que não. Em obras fechadas como livros e filmes, os subenredos geralmente têm um forte vínculo com o enredo central, e acabam inclusive influenciando o seu final. Vamos usar como exemplo o clássico filme de gangster Scarface de 1932, dirigido por Howard Hawks e que foi refilmado com menos elegância por Brian de Palma em 1983. Scarface tem um roteiro simples e direto, tornando fácil sua análise. É um enredo de ascensão e queda, onde o gangster Tony Camonte (Tony Montana na refilmagem) escala os degraus do poder do crime organizado com uma ambição cega. Dois subenredos em Scarface são utilizados de forma cristalina, se relacionando com a trama central e ajudando na construção dos personagens. O primeiro é a relação do protagonista com sua irmã, baseada em um ciúme doentio. O início do colapso psicológico de Tony ocorre quando ele descobre que seu melhor amigo está tendo um caso com ela. O outro subenredo é o interesse romântico de Tony na mulher do seu chefe, o que revela muito sobre o seu caráter. Bastou a sublime construção desses dois subenredos, além da idéia central, para o filme funcionar. Muitos autores sentem grandes dificuldades de escrita na hora de criar o meio da obra, o Ato II, e muitas vezes acabam tornando a história arrastada por falta de assuntos interessantes. É nesse momento que os subenredos encontram grande utilidade, tendo a função de manter o interesse da audiência. Porém, o autor deve acrescentar os subenredos de maneira cautelosa, evitando também os excessos. Uma maneira interessante de aplicarmos com eficácia os subenredos é criarmos para cada subenredo uma estrutura própria de início, meio e fim, sabendo exatamente em qual momento ele será introduzido, como ele será desenvolvido, e como será sua conclusão. A regra básica é a de que todo subenredo deve estar satisfatoriamente concluído ao fim de cada obra. Nunca cometa o gravíssimo erro de iniciar um subenredo e encerrar uma história sem pelo menos dar uma noção de resolução a ele. É válido lembrarmos que existem alguns casos raros onde uma obra não possui um enredo central claramente definido, e sim vários enredos que podem ou não se entrelaçar no final. O já clássico Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994) é um claro exemplo desse tipo de roteiro. Alguns teóricos costumam dizer que nesse caso não temos subenredos dependentes de um enredo principal e sim multienredos com a mesma importância. Subenredos em histórias seriadas Telenovelas, revistas mensais de histórias em quadrinhos e séries de televisão são fortemente baseadas em continuações, e precisam ter um olhar um pouco diferente em relação aos subenredos. Nesse tipo de obra, mais aberta, há espaço para subenredos que não estejam fortemente ligados ao enredo central, e permitem uma maior quantidade de personagens e tramas. Um subenredo de uma história seriada, após ser introduzido, precisa sempre marcar presença no roteiro, caso contrário a audiência pode acabar se esquecendo dele. Um personagem exclusivo de um subenredo não pode ficar muitos capítulos sem aparecer. Uma técnica muito utilizada em relação aos subenredos de obras abertas, como seriados e histórias em quadrinhos, é a escada de importância, chamada por Denny O´Neil de Paradigma Levitz (Levitz Paradigm). Vamos supor que tenhamos em algum momento da série três subenredos acontecendo, os subenredos 1, 2 e 3, classificados por ordem numérica de importância. Logo, o subenredo 1 tem mais tempo no roteiro. Quando o autor decide finalizar o subenredo 1, há então uma escalada na história. O subenredo 2 passa a ser o novo 1, mais importante, o subenredo 3 vira o 2, e o autor deve criar um novo subenredo, inicialmente de menor importância, para ocupar o posto 3. Assim, sempre haverá subenredos, e cada um terá sua importância no desenrolar dos acontecimentos. Conclusão Tenha muita atenção ao criar os subenredos de sua obra. Nunca se esqueça que toda cena, todo personagem, todo e qualquer aspecto narrativo deve contribuir para manter o interesse do público e fazer a história evoluir. Capriche nos conflitos criados pelos seus subenredos pois eles podem ter grande impacto na obra, mas cuidado para eles não ofuscarem o enredo principal! Além disso, é muito comum personagens secundários presentes em um subenredo fazerem sucesso e acabarem se tornando protagonistas de outros trabalhos. Exercício proposto: - Pegue uma telenovela, um seriado de TV, um filme ou uma história em quadrinhos e identifique os subenredos envolvidos e o seu tipo (romântico, familiar, profissional, misterioso, etc). Bons estudos!
tópicos sobre narrativa, roteiros e mundos virtuais
Além do Cotidiano
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Trabalhando com Subenredos

Criando o Suporte de sua História Por Sandro Massarani Sabemos que o enredo principal de uma história envolve o desejo do protagonista em alcançar um objetivo central para a sua vida. Porém, quase nenhuma obra narrativa se sustenta somente com cenas criadas exclusivamente para o alcance desse objetivo primordial. Para expandir e enriquecer a obra, torna-se necessária a criação de subenredos (subplots), que fazem o mundo ficcional criado pelo autor mais realista e humano. Os subenredos são enredos menores que funcionam como suporte da história, e criam a possibilidade de conhecermos mais sobre a vida do protagonista, além de ser uma das melhores formas de desenvolvermos e criarmos personagens secundários, dando-lhes vida e personalidade. Os subenredos mais comuns são os românticos, os profissionais (relacionados ao trabalho), os familiares, e os obscuros (algo misterioso do passado). O objetivo principal do Super-Homem é manter a paz na Terra, mas várias vezes somos atraídos pela sua relação com Louis Lane, que forma o subenredo romântico da história. O Homem-Aranha também tem subenredos interessantes, como seu trabalho como fotógrafo no Clarim Diário (subenredo profissional), o que lhe dá uma fonte de renda mas ao mesmo tempo alimenta as propagandas contra sua própria pessoa, e também há um delicado subenredo familiar, representado pela sua frágil tia. O que seria do Senhor dos Anéis sem os seus incontáveis subenredos? Será que apenas a jornada de Frodo sustentaria a história? Lógico que não. Em obras fechadas como livros e filmes, os subenredos geralmente têm um forte vínculo com o enredo central, e acabam inclusive influenciando o seu final. Vamos usar como exemplo o clássico filme de gangster Scarface de 1932, dirigido por Howard Hawks e que foi refilmado com menos elegância por Brian de Palma em 1983. Scarface tem um roteiro simples e direto, tornando fácil sua análise. É um enredo de ascensão e queda, onde o gangster Tony Camonte (Tony Montana na refilmagem) escala os degraus do poder do crime organizado com uma ambição cega. Dois subenredos em Scarface são utilizados de forma cristalina, se relacionando com a trama central e ajudando na construção dos personagens. O primeiro é a relação do protagonista com sua irmã, baseada em um ciúme doentio. O início do colapso psicológico de Tony ocorre quando ele descobre que seu melhor amigo está tendo um caso com ela. O outro subenredo é o interesse romântico de Tony na mulher do seu chefe, o que revela muito sobre o seu caráter. Bastou a sublime construção desses dois subenredos, além da idéia central, para o filme funcionar. Muitos autores sentem grandes dificuldades de escrita na hora de criar o meio da obra, o Ato II, e muitas vezes acabam tornando a história arrastada por falta de assuntos interessantes. É nesse momento que os subenredos encontram grande utilidade, tendo a função de manter o interesse da audiência. Porém, o autor deve acrescentar os subenredos de maneira cautelosa, evitando também os excessos. Uma maneira interessante de aplicarmos com eficácia os subenredos é criarmos para cada subenredo uma estrutura própria de início, meio e fim, sabendo exatamente em qual momento ele será introduzido, como ele será desenvolvido, e como será sua conclusão. A regra básica é a de que todo subenredo deve estar satisfatoriamente concluído ao fim de cada obra. Nunca cometa o gravíssimo erro de iniciar um subenredo e encerrar uma história sem pelo menos dar uma noção de resolução a ele. É válido lembrarmos que existem alguns casos raros onde uma obra não possui um enredo central claramente definido, e sim vários enredos que podem ou não se entrelaçar no final. O já clássico Pulp Fiction (Quentin Tarantino, 1994) é um claro exemplo desse tipo de roteiro. Alguns teóricos costumam dizer que nesse caso não temos subenredos dependentes de um enredo principal e sim multienredos com a mesma importância. Subenredos em histórias seriadas Telenovelas, revistas mensais de histórias em quadrinhos e séries de televisão são fortemente baseadas em continuações, e precisam ter um olhar um pouco diferente em relação aos subenredos. Nesse tipo de obra, mais aberta, há espaço para subenredos que não estejam fortemente ligados ao enredo central, e permitem uma maior quantidade de personagens e tramas. Um subenredo de uma história seriada, após ser introduzido, precisa sempre marcar presença no roteiro, caso contrário a audiência pode acabar se esquecendo dele. Um personagem exclusivo de um subenredo não pode ficar muitos capítulos sem aparecer. Uma técnica muito utilizada em relação aos subenredos de obras abertas, como seriados e histórias em quadrinhos, é a escada de importância, chamada por Denny O´Neil de Paradigma Levitz (Levitz Paradigm). Vamos supor que tenhamos em algum momento da série três subenredos acontecendo, os subenredos 1, 2 e 3, classificados por ordem numérica de importância. Logo, o subenredo 1 tem mais tempo no roteiro. Quando o autor decide finalizar o subenredo 1, há então uma escalada na história. O subenredo 2 passa a ser o novo 1, mais importante, o subenredo 3 vira o 2, e o autor deve criar um novo subenredo, inicialmente de menor importância, para ocupar o posto 3. Assim, sempre haverá subenredos, e cada um terá sua importância no desenrolar dos acontecimentos. Conclusão Tenha muita atenção ao criar os subenredos de sua obra. Nunca se esqueça que toda cena, todo personagem, todo e qualquer aspecto narrativo deve contribuir para manter o interesse do público e fazer a história evoluir. Capriche nos conflitos criados pelos seus subenredos pois eles podem ter grande impacto na obra, mas cuidado para eles não ofuscarem o enredo principal! Além disso, é muito comum personagens secundários presentes em um subenredo fazerem sucesso e acabarem se tornando protagonistas de outros trabalhos. Exercício proposto: - Pegue uma telenovela, um seriado de TV, um filme ou uma história em quadrinhos e identifique os subenredos envolvidos e o seu tipo (romântico, familiar, profissional, misterioso, etc). Bons estudos!