Ordenando as Cenas de sua Obra

Por Sandro Massarani O processo de escrita de uma obra está longe de ser linear. Eu penso que este processo de criação esteja mais próximo da maneira de como o artista constrói uma escultura, ou seja, moldando seu objeto de forma gradativa, tendo uma visão ampla do todo ao seu redor. Como vimos em Estrutura da História (pré-requisito para entendermos esse assunto), o enredo de uma obra pode se dividido em atos, sendo o mais comum a obra em três atos. Indo agora um pouco mais além, esses atos são compostos por sequências de cenas. Logo, uma história também seria uma coletânea de cenas. Observe o simples esquema a seguir: HISTÓRIA | ATOS | CENAS A cena, portanto, é uma unidade de medida dentro da sua história. Uma determinada sequência de cenas cria um ato, de acordo com os critérios de cada escritor. Toda vez que existe uma situação dentro de um determinado espaço e tempo temos a configuração de uma cena. Se há a mudança da localidade ou um avanço ou retrocesso do relógio, há automaticamente uma mudança de cena. O autor deve estar bem atento a tudo isso, e deve aprender a construir sua obra tendo em mente a sua divisão em cenas. O enredo de uma história nada mais é, portanto, que o "encadeamento" de cenas, como já disse Aristóteles há mais de dois mil anos. Após ter a noção de como funciona a estrutura de uma história, o próximo passo do escritor seria o de pegar as suas idéias e tentar organizá-las de modo coerente e eficaz, formulando cenas e colocando-as em uma sequência que o agrade. O autor não precisa e nem deve começar a escrever a obra pelo seu início, e na verdade o ideal seria iniciar a escrita somente após ter todas as cenas planejadas e em ordem, mesmo que de maneira apenas provisória, deixando espaço para mudanças. De acordo com Blake Snyder, o número ideal de cenas para um roteiro de cinema seria 40. Já Robert McKee estabelece o número de cenas entre 40 e 60. Menos de 40 cenas se for uma obra voltada para teatro e mais de 60 se for para um romance literário. Existem contos consagrados que contam com apenas uma cena. Esse número depende do objetivo a ser alcançado. Cartões de Cena Uma das melhores e mais flexíveis formas de organizar o seu processo de escrita é criar um cartão para cada cena e depois ordená-los em sequência para se obter uma visão total de toda a obra. Primeiramente, escreva em cartões um resumo de suas cenas e não se preocupe por enquanto com a ordem e nem se a cena vai ser utilizada. Como comentei antes, tente o mais cedo possível pelo menos esboçar o fim da história. Você precisa ter um ponto de destino para melhor criar o caminho a ser percorrido. Vamos dar uma olhada em um exemplo típico de cartão de cena: Tendo em mãos os diversos cartões, procure separá-los em três grupos, um para cada Ato (isso se o escritor utilizar a divisão por Atos). Alguns escritores chegam a prender esses cartões em um grande mural para ter uma visão mais privilegiada. Outros espalham os cartões pela mesa para depois ordená-los. Se você desejar, não precisa nem fazer os cartões, basta escrever o resumo da cena no computador e ir montando a ordem em um processador de texto ou planilha. Normalmente, o Ato 1 corresponde no máximo a 30% da obra, o Ato 2 fica em torno de 55% e o Ato 3 em 15%. Logicamente, isso é apenas um parâmetro geral e não deve ser sempre seguido de maneira fixa. Cada Cena é um Pequeno Filme O essencial de uma obra é retratar os conflitos que o protagonista tem que ultrapassar para conseguir (ou não) seu objetivo. Cada cena individualmente deve ser tratada da mesma forma, ou seja, cada uma deve ter o seu próprio conflito e objetivo, lembrando que o autor sempre deve fazer a história se mover, evitando estaticidade e diálogos vazios. Porém, uma boa obra não pode ter somente cenas com intensos conflitos, senão a audiência se desgastará rapidamente. O leitor / espectador precisa de cenas um pouco mais leves para ter um alívio e sustentar a tensão. O ideal é o escritor classificar suas cenas de acordo com o nível de intensidade delas: Baixa, Média e Alta. As cenas de baixa intensidade são cenas rápidas, de preparação e ligação para o que está por vir. Não demore muito nesse tipo de cena. As cenas de média intensidade compreende a maioria da obra e devem ter conflitos e emoções intensas, diálogos importantes, e construir a essência da história. Já as cenas de alta intensidade são as cenas de grande importância e momentos chave, geralmente pontos de transição e o clímax final. Não deve-se ter mais do que três ou quatro cenas desse tipo em uma obra, pois são cenas de picos emocionais e muito desgastantes. Se essas cenas forem de alta qualidade, já é meio caminho para uma história memorável. É interessante também o escritor ter a noção do processo de Ação Crescente (Rising Action), ou seja, o protagonista deve enfrentar ao longo da obra obstáculos cada vez mais fortes, sempre aumentando o conflito e a tensão envolvida. Logo, uma cena de alta intensidade no final da obra deve estar ligada a um problema maior do que uma cena de alta intensidade no início da obra. Sempre dificulte a vida do protagonista, ele não deve obter nada facilmente. Conclusão Após o escritor decidir a ordem das cenas e a qual ato elas pertencem, quais são os principais personagens, seus objetivos e conflitos, está na hora de começar a escrever. O mais importante é sempre se lembrar de que a ordem das cenas pode mudar a qualquer momento, e que isso é uma prática comum. O escritor sempre deve trabalhar em um processo de tentativa e erro. Com o sistema de cartões ou outra forma de organização semelhante, o autor tem toda a visão de sua obra, e sabe claramente onde está o início, o meio e o fim. É lógico que boas obras podem e foram criadas sem um sistema de organização e ordenação das cenas, e ninguém deve limitar sua criatividade ficando preso a esquemas rígidos. Porém, quanto maior for o controle do escritor sobre sua história, maior será a sua chance de ver e consertar erros na sua estrutura. Bons estudos!
tópicos sobre narrativa, roteiros e mundos virtuais
Além do Cotidiano
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Ordenando as Cenas de sua Obra

Por Sandro Massarani O processo de escrita de uma obra está longe de ser linear. Eu penso que este processo de criação esteja mais próximo da maneira de como o artista constrói uma escultura, ou seja, moldando seu objeto de forma gradativa, tendo uma visão ampla do todo ao seu redor. Como vimos em Estrutura da História (pré-requisito para entendermos esse assunto), o enredo de uma obra pode se dividido em atos, sendo o mais comum a obra em três atos. Indo agora um pouco mais além, esses atos são compostos por sequências de cenas. Logo, uma história também seria uma coletânea de cenas. Observe o simples esquema a seguir: HISTÓRIA | ATOS | CENAS A cena, portanto, é uma unidade de medida dentro da sua história. Uma determinada sequência de cenas cria um ato, de acordo com os critérios de cada escritor. Toda vez que existe uma situação dentro de um determinado espaço e tempo temos a configuração de uma cena. Se há a mudança da localidade ou um avanço ou retrocesso do relógio, há automaticamente uma mudança de cena. O autor deve estar bem atento a tudo isso, e deve aprender a construir sua obra tendo em mente a sua divisão em cenas. O enredo de uma história nada mais é, portanto, que o "encadeamento" de cenas, como já disse Aristóteles há mais de dois mil anos. Após ter a noção de como funciona a estrutura de uma história, o próximo passo do escritor seria o de pegar as suas idéias e tentar organizá-las de modo coerente e eficaz, formulando cenas e colocando-as em uma sequência que o agrade. O autor não precisa e nem deve começar a escrever a obra pelo seu início, e na verdade o ideal seria iniciar a escrita somente após ter todas as cenas planejadas e em ordem, mesmo que de maneira apenas provisória, deixando espaço para mudanças. De acordo com Blake Snyder, o número ideal de cenas para um roteiro de cinema seria 40. Já Robert McKee estabelece o número de cenas entre 40 e 60. Menos de 40 cenas se for uma obra voltada para teatro e mais de 60 se for para um romance literário. Existem contos consagrados que contam com apenas uma cena. Esse número depende do objetivo a ser alcançado. Cartões de Cena Uma das melhores e mais flexíveis formas de organizar o seu processo de escrita é criar um cartão para cada cena e depois ordená-los em sequência para se obter uma visão total de toda a obra. Primeiramente, escreva em cartões um resumo de suas cenas e não se preocupe por enquanto com a ordem e nem se a cena vai ser utilizada. Como comentei antes, tente o mais cedo possível pelo menos esboçar o fim da história. Você precisa ter um ponto de destino para melhor criar o caminho a ser percorrido. Vamos dar uma olhada em um exemplo típico de cartão de cena: Tendo em mãos os diversos cartões, procure separá- los em três grupos, um para cada Ato (isso se o escritor utilizar a divisão por Atos). Alguns escritores chegam a prender esses cartões em um grande mural para ter uma visão mais privilegiada. Outros espalham os cartões pela mesa para depois ordená- los. Se você desejar, não precisa nem fazer os cartões, basta escrever o resumo da cena no computador e ir montando a ordem em um processador de texto ou planilha. Normalmente, o Ato 1 corresponde no máximo a 30% da obra, o Ato 2 fica em torno de 55% e o Ato 3 em 15%. Logicamente, isso é apenas um parâmetro geral e não deve ser sempre seguido de maneira fixa. Cada Cena é um Pequeno Filme O essencial de uma obra é retratar os conflitos que o protagonista tem que ultrapassar para conseguir (ou não) seu objetivo. Cada cena individualmente deve ser tratada da mesma forma, ou seja, cada uma deve ter o seu próprio conflito e objetivo, lembrando que o autor sempre deve fazer a história se mover, evitando estaticidade e diálogos vazios. Porém, uma boa obra não pode ter somente cenas com intensos conflitos, senão a audiência se desgastará rapidamente. O leitor / espectador precisa de cenas um pouco mais leves para ter um alívio e sustentar a tensão. O ideal é o escritor classificar suas cenas de acordo com o nível de intensidade delas: Baixa, Média e Alta. As cenas de baixa intensidade são cenas rápidas, de preparação e ligação para o que está por vir. Não demore muito nesse tipo de cena. As cenas de média intensidade compreende a maioria da obra e devem ter conflitos e emoções intensas, diálogos importantes, e construir a essência da história. Já as cenas de alta intensidade são as cenas de grande importância e momentos chave, geralmente pontos de transição e o clímax final. Não deve-se ter mais do que três ou quatro cenas desse tipo em uma obra, pois são cenas de picos emocionais e muito desgastantes. Se essas cenas forem de alta qualidade, já é meio caminho para uma história memorável. É interessante também o escritor ter a noção do processo de Ação Crescente (Rising Action), ou seja, o protagonista deve enfrentar ao longo da obra obstáculos cada vez mais fortes, sempre aumentando o conflito e a tensão envolvida. Logo, uma cena de alta intensidade no final da obra deve estar ligada a um problema maior do que uma cena de alta intensidade no início da obra. Sempre dificulte a vida do protagonista, ele não deve obter nada facilmente. Conclusão Após o escritor decidir a ordem das cenas e a qual ato elas pertencem, quais são os principais personagens, seus objetivos e conflitos, está na hora de começar a escrever. O mais importante é sempre se lembrar de que a ordem das cenas pode mudar a qualquer momento, e que isso é uma prática comum. O escritor sempre deve trabalhar em um processo de tentativa e erro. Com o sistema de cartões ou outra forma de organização semelhante, o autor tem toda a visão de sua obra, e sabe claramente onde está o início, o meio e o fim. É lógico que boas obras podem e foram criadas sem um sistema de organização e ordenação das cenas, e ninguém deve limitar sua criatividade ficando preso a esquemas rígidos. Porém, quanto maior for o controle do escritor sobre sua história, maior será a sua chance de ver e consertar erros na sua estrutura. Bons estudos!