Orfeu Negro (1959)

Por Sandro Massarani Nome: Orfeu Negro Rating: 7 / 10 Nome Original: Orfeu Negro Ano: 1959 País: França, Itália, Brasil Cor: Colorido Duração: 99 min. Dirigido por: Marcel Camus Escrito por: Marcel Camus e Jacques Viot, baseado em uma peça de Vinícius de Moraes Estrelado por: Breno Mello, Marpessa Dawn, Lourdes de Oliveira, Léa Garcia, Alexandro Constantino, Ademar Ferreira da Silva "Tristeza não tem fim, felicidade sim." Enredo: Tímida garota do interior se envolve em um amor proibido com carismático morador de uma favela, tendo como panorama o insano carnaval carioca. Baseado na peça de Vinícius de Moraes e com algumas referências ao mito grego de Orfeu. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, do Globo de Ouro e do Oscar de melhor filme estrangeiro. Histórico: O ano de 1959 é sem dúvida o principal ano do cinema francês, marcando a entrada da Nouvelle Vague no cenário internacional, com apresentações e discursos impactantes no prestigiado festival de cinema de Cannes. Filmes como Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups - François Truffaut) e Hiroshima, Mon Amour (Alan Resnais) já configuram mudanças profundas na forma de se fazer uma obra cinematográfica. Porém, curiosamente, o  vencedor não pode ser considerado um fiel representante dessa escola: Orfeu Negro, de Marcel Camus. Na mitologia grega, Orfeu era um artista completo, sendo músico e poeta e sua habilidade com a Lira encantava até animais e plantas. Sua esposa Eurídice, ao ser perseguida por Aristeu, acaba sendo morta por uma picada de serpente. A morte da amada leva Orfeu a uma incrível viagem ao mundo dos mortos (Hades). Com seus talentos musicais, Orfeu consegue convencer os deuses a levar Eurídice de volta para a vida, mas com a condição de que ele não olhasse para trás até que os dois tivessem saído da escuridão. Cheio de ansiedade, Orfeu se vira no momento que chega na luz, se esquecendo de que Eurídice ainda não havia cruzado a fronteira entre os mundos. Com esse ato, ele a perde para sempre. O que Camus faz é transpor com muita liberdade algumas dessas idéias do mito para o exótico mundo do carnaval carioca. Na verdade, poucas situações da história grega são aproveitadas, marcadamente os nomes e alguns pontos do final. Mesmo assim, O filme é carregado de simbolismos e metáforas. Uma pipa caindo, um talismã quebrado, a presença no carnaval da Rainha do Dia e da Rainha da Noite, a viagem de Orfeu ao "outro mundo", o cachorro de nome Cerberus. Orfeu é um motorista de bonde e líder de uma escola de samba, e alguns garotos do morro acreditam que o sol nasce quando ele toca o seu violão. Mira é a ciumenta noiva de Orfeu, que o pressiona para o casamento em pleno carnaval. Orfeu divide seu barraco com Serafina, cuja prima Eurídice chega do interior fugindo de um homem que a persegue. Esse "homem" é a imagem da própria morte, e o filme não deixa claro quem é e o porque desse personagem. Orfeu e Eurídice se apaixonam praticamente sem explicação e o enredo se desenrola com o desfile de carnaval onde Eurídice é atacada pela Morte e por Mira. A história do filme não é o seu ponto forte. Orfeu Negro é estranho de se definir, tendo características claras de um documentário, mas com elementos do sobrenatural agindo sobre a trama. O filme é carregado por uma combinação bem brasileira, a da música com a cidade do Rio de Janeiro, que formam a base narrativa da obra. O que Camus faz é mostrar o Rio de Janeiro de forma tão esplendorosa que até hoje causa encantamento. Poucos filmes souberam utilizar tão bem a cor quanto Orfeu Negro. É um filme que valoriza mais os instintos do que o racional, sendo fruto de uma combinação muito incomum. A maior parte dos atores não são profissionais. A Morte é representada por ninguém menos que Ademar Ferreira da Silva, bi-campeão olímpico no salto triplo. Eurídice é interpretada por uma dançarina de Pittsburg. Passeando pela praia, Camus encontrou o jogador de futebol Breno Mello e o convidou para um teste, em que este foi aprovado para o papel principal. Tanto Marcel Camus quanto os atores não tiveram uma carreira de sucesso após o filme. Pode parecer um pouco injusta a vitória de Orfeu Negro tanto em Cannes quanto nos EUA, mas é preciso analisarmos alguns pontos que fazem a obra ter grande importância contextual. Não era comum vermos atores negros como protagonistas em 1959. Se levarmos em conta que a segregação nos EUA estava em níveis elevadíssimos nesta época, a vitória do Oscar é surpreendente. Um fator crucial para o seu sucesso foi a utilização sublime da cor, que na época ainda não era escolha obrigatória na criação de um filme. A música, de Tom Jobim e Luis Bonfá ajudou a iniciar a moda da Bossa Nova, que acabaria conquistando o mundo na década de 60. Além disso, assistir a Orfeu Negro é ser transportado para um Rio de Janeiro que mistura o rústico e selvagem com o moderno, estabelecendo um mundo de fantasia ao mesmo tempo tão próximo quanto distante. Prós: - Poucos filmes conseguiram retratar tão bem uma cidade. O Rio de Janeiro, com filmagens em locação, explode na tela, refletindo cores brilhantes e uma energia incontrolável. - O filme é carregado de sensualidade e sexualidade sem precisar apelar (aliás na época nem tinha como). Uma lição para os cineastas atuais que acham que a sexualidade é alcançada vendo mulheres ficarem peladas apenas por ficarem. - A Trilha sonora praticamente apresentou a Bossa Nova no circuito internacional e abriu caminho para grandes músicos brasileiros. A importância de Orfeu Negro nesse aspecto não pode ser subestimada. - Os protagonistas são negros ou mulatos, também algo incomum para a época. Contras: - Não há o desenvolvimento dos personagens mais importantes e as atuações são no geral muito fracas e artificiais. O roteiro é bem primário, tendo função secundária, com diálogos muito supérfluos. Na verdade o aspecto do filme que acaba se destacando é realmente o do caráter de semi-documentário. - Um final muito extenso, que tenta se utilizar do mito mas enfraquece completamente o clímax. Na verdade isso não é uma regra fixa, como tudo na arte, mas na minha opinião é bom acabarmos um filme logo após a sua cena mais forte, pois senão seu impacto vai se enfraquecendo. - Pode ser que eu esteja enganado, mas Orfeu Negro é muito mais conhecido no exterior do que no Brasil, mesmo sendo falado em Português e co-produzido aqui. Isso mostra mais uma vez a ignorância dos meios de comunicação no Brasil, principalmente os da massa. É simplesmente infame que um canal aberto de grande audiência não tenha um programa específico voltado para a história não só do cinema, mas também da literatura, da música e das artes plásticas. Há quanto tempo não vemos Orfeu Negro, O Pagador de Promessas, Pixote e Deus e o Diabo na Terra do Sol ser exibido em TV aberta? É inconcebível. Devo Assistir ? Para quem gosta de agitação e imagens históricas é uma overdose sonora e visual que carrega o espectador junto, como se ele estivesse ali naquele carnaval. Não espere ficar fisgado pela história, mas se deixe levar pela festa e será uma experiência e tanto.
tópicos sobre narrativa, roteiros e mundos virtuais
Além do Cotidiano
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Orfeu Negro (1959)

Por Sandro Massarani Nome: Orfeu Negro Rating: 7 / 10 Nome Original: Orfeu Negro Ano: 1959 País: França, Itália, Brasil Cor: Colorido Duração: 99 min. Dirigido por: Marcel Camus Escrito por: Marcel Camus e Jacques Viot, baseado em uma peça de Vinícius de Moraes Estrelado por: Breno Mello, Marpessa Dawn, Lourdes de Oliveira, Léa Garcia, Alexandro Constantino, Ademar Ferreira da Silva "Tristeza não tem fim, felicidade sim." Enredo: Tímida garota do interior se envolve em um amor proibido com carismático morador de uma favela, tendo como panorama o insano carnaval carioca. Baseado na peça de Vinícius de Moraes e com algumas referências ao mito grego de Orfeu. Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, do Globo de Ouro e do Oscar de melhor filme estrangeiro. Histórico: O ano de 1959 é sem dúvida o principal ano do cinema francês, marcando a entrada da Nouvelle Vague no cenário internacional, com apresentações e discursos impactantes no prestigiado festival de cinema de Cannes. Filmes como Os Incompreendidos  (Les Quatre Cents Coups - François Truffaut) e Hiroshima, Mon Amour (Alan Resnais) já configuram mudanças profundas na forma de se fazer uma obra cinematográfica. Porém, curiosamente, o  vencedor não pode ser considerado um fiel representante dessa escola: Orfeu Negro, de Marcel Camus. Na mitologia grega, Orfeu era um artista completo, sendo músico e poeta e sua habilidade com a Lira encantava até animais e plantas. Sua esposa Eurídice, ao ser perseguida por Aristeu, acaba sendo morta por uma picada de serpente. A morte da amada leva Orfeu a uma incrível viagem ao mundo dos mortos (Hades). Com seus talentos musicais, Orfeu consegue convencer os deuses a levar Eurídice de volta para a vida, mas com a condição de que ele não olhasse para trás até que os dois tivessem saído da escuridão. Cheio de ansiedade, Orfeu se vira no momento que chega na luz, se esquecendo de que Eurídice ainda não havia cruzado a fronteira entre os mundos. Com esse ato, ele a perde para sempre. O que Camus faz é transpor com muita liberdade algumas dessas idéias do mito para o exótico mundo do carnaval carioca. Na verdade, poucas situações da história grega são aproveitadas, marcadamente os nomes e alguns pontos do final. Mesmo assim, O filme é carregado de simbolismos e metáforas. Uma pipa caindo, um talismã quebrado, a presença no carnaval da Rainha do Dia e da Rainha da Noite, a viagem de Orfeu ao "outro mundo", o cachorro de nome Cerberus. Orfeu é um motorista de bonde e líder de uma escola de samba, e alguns garotos do morro acreditam que o sol nasce quando ele toca o seu violão. Mira é a ciumenta noiva de Orfeu, que o pressiona para o casamento em pleno carnaval. Orfeu divide seu barraco com Serafina, cuja prima Eurídice chega do interior fugindo de um homem que a persegue. Esse "homem" é a imagem da própria morte, e o filme não deixa claro quem é e o porque desse personagem. Orfeu e Eurídice se apaixonam praticamente sem explicação e o enredo se desenrola com o desfile de carnaval onde Eurídice é atacada pela Morte e por Mira. A história do filme não é o seu ponto forte. Orfeu Negro é estranho de se definir, tendo características claras de um documentário, mas com elementos do sobrenatural agindo sobre a trama. O filme é carregado por uma combinação bem brasileira, a da música com a cidade do Rio de Janeiro, que formam a base narrativa da obra. O que Camus faz é mostrar o Rio de Janeiro de forma tão esplendorosa que até hoje causa encantamento. Poucos filmes souberam utilizar tão bem a cor quanto Orfeu Negro. É um filme que valoriza mais os instintos do que o racional, sendo fruto de uma combinação muito incomum. A maior parte dos atores não são profissionais. A Morte é representada por ninguém menos que Ademar Ferreira da Silva, bi-campeão olímpico no salto triplo. Eurídice é interpretada por uma dançarina de Pittsburg. Passeando pela praia, Camus encontrou o jogador de futebol Breno Mello e o convidou para um teste, em que este foi aprovado para o papel principal. Tanto Marcel Camus quanto os atores não tiveram uma carreira de sucesso após o filme. Pode parecer um pouco injusta a vitória de Orfeu Negro tanto em Cannes quanto nos EUA, mas é preciso analisarmos alguns pontos que fazem a obra ter grande importância contextual. Não era comum vermos atores negros como protagonistas em 1959. Se levarmos em conta que a segregação nos EUA estava em níveis elevadíssimos nesta época, a vitória do Oscar é surpreendente. Um fator crucial para o seu sucesso foi a utilização sublime da cor, que na época ainda não era escolha obrigatória na criação de um filme. A música, de Tom Jobim e Luis Bonfá ajudou a iniciar a moda da Bossa Nova, que acabaria conquistando o mundo na década de 60. Além disso, assistir a Orfeu Negro é ser transportado para um Rio de Janeiro que mistura o rústico e selvagem com o moderno, estabelecendo um mundo de fantasia ao mesmo tempo tão próximo quanto distante. Prós: - Poucos filmes conseguiram retratar tão bem uma cidade. O Rio de Janeiro, com filmagens em locação, explode na tela, refletindo cores brilhantes e uma energia incontrolável. - O filme é carregado de sensualidade e sexualidade sem precisar apelar (aliás na época nem tinha como). Uma lição para os cineastas atuais que acham que a sexualidade é alcançada vendo mulheres ficarem peladas apenas por ficarem. - A Trilha sonora praticamente apresentou a Bossa Nova no circuito internacional e abriu caminho para grandes músicos brasileiros. A importância de Orfeu Negro nesse aspecto não pode ser subestimada. - Os protagonistas são negros ou mulatos, também algo incomum para a época. Contras: - Não há o desenvolvimento dos personagens mais importantes e as atuações são no geral muito fracas e artificiais. O roteiro é bem primário, tendo função secundária, com diálogos muito supérfluos. Na verdade o aspecto do filme que acaba se destacando é realmente o do caráter de semi-documentário. - Um final muito extenso, que tenta se utilizar do mito mas enfraquece completamente o clímax. Na verdade isso não é uma regra fixa, como tudo na arte, mas na minha opinião é bom acabarmos um filme logo após a sua cena mais forte, pois senão seu impacto vai se enfraquecendo. - Pode ser que eu esteja enganado, mas Orfeu Negro é muito mais conhecido no exterior do que no Brasil, mesmo sendo falado em Português e co-produzido aqui. Isso mostra mais uma vez a ignorância dos meios de comunicação no Brasil, principalmente os da massa. É simplesmente infame que um canal aberto de grande audiência não tenha um programa específico voltado para a história não só do cinema, mas também da literatura, da música e das artes plásticas. Há quanto tempo não vemos Orfeu Negro, O Pagador de Promessas, Pixote e Deus e o Diabo na Terra do Sol ser exibido em TV aberta? É inconcebível. Devo Assistir ? Para quem gosta de agitação e imagens históricas é uma overdose sonora e visual que carrega o espectador junto, como se ele estivesse ali naquele carnaval. Não espere ficar fisgado pela história, mas se deixe levar pela festa e será uma experiência e tanto.